Crianças difíceis ou infâncias sobrecarregadas?

Reflexões sobre a infância tecnológica

Tenho pensado muito nas crianças que chamamos de “difíceis”.

Na criança que não para. Que não sabe esperar. Que se irrita facilmente. Que abandona uma brincadeira poucos minutos depois de começá-la. Que parece entediada com tudo. Que não aceita um “não”. Que precisa que alguma coisa esteja acontecendo o tempo inteiro.

E quanto mais observo a infância contemporânea, mais uma pergunta me acompanha:

Estamos diante de crianças difíceis ou de infâncias sobrecarregadas?

A tecnologia faz parte da infância de hoje. Não acredito que seja possível — nem necessário — imaginar uma infância completamente distante dela.

O que me preocupa é o excesso.

E não apenas pelo número de horas que uma criança permanece diante de uma tela, mas por aquilo que essas horas começam a substituir.

Quando a tela ocupa grande parte do cotidiano, ela pode ocupar também o tempo do movimento, da conversa, da brincadeira espontânea, do contato com outras crianças, da natureza, do descanso e até do tédio.

A espera ganhou uma tela.

O trajeto ganhou uma tela.

A refeição ganhou uma tela.

O tédio ganhou uma tela.

Às vezes, até o choro e a frustração ganham uma tela.

E existe outra questão que me inquieta: a intensidade dos estímulos.

Vídeos curtos, mudanças rápidas de cena, sons, imagens, jogos, recompensas imediatas e conteúdos que se sucedem quase sem intervalo oferecem uma experiência muito diferente do ritmo da vida cotidiana.

Depois de tanta velocidade, o mundo real pode parecer lento demais.

Esperar demora.

Uma brincadeira simples perde rapidamente o interesse.

O silêncio incomoda.

O tédio parece insuportável.

E a criança começa a procurar constantemente o próximo estímulo.

Quando parte da infância passa a ser assistida

Ao mesmo tempo, uma parte da própria experiência infantil vai se modificando.

A criança não apenas brinca: assiste outras crianças brincando.

Não apenas joga: assiste a gameplays.

Não apenas inventa histórias: recebe histórias, imagens, movimentos e desfechos produzidos por alguém.

Pouco a pouco, uma parte da infância corre o risco de deixar de ser experimentada para ser assistida.

E o corpo também pode começar a falar.

A dificuldade para desacelerar, a irritabilidade, o sono desorganizado, a agitação, o cansaço e as reações intensas quando a tela é retirada não deveriam ser vistos isoladamente nem transformados automaticamente em diagnósticos.

Mas também não deveriam ser ignorados.

Porque talvez estejamos olhando demais para o comportamento da criança e de menos para o ambiente que construímos ao redor dela.

Não acredito que as telas expliquem todo comportamento infantil. Crianças são diferentes, vivem histórias diferentes e existem inúmeras razões para uma mudança de comportamento.

Mas também não consigo ignorar uma contradição do nosso tempo:

Queremos crianças capazes de se autorregular enquanto oferecemos a elas um cotidiano cada vez mais regulado por estímulos externos.

Autorregulação não nasce pronta.

A criança aprende, pouco a pouco, a esperar, desejar, frustrar-se, reorganizar-se, perceber o próprio corpo, atravessar o tédio e descobrir o que fazer quando ninguém lhe entrega imediatamente alguma coisa para consumir.

Para aprender tudo isso, ela precisa ter a oportunidade de viver tudo isso.

Antes de perguntar o que há de errado com a criança

Por isso, antes de perguntar “o que há de errado com essa criança?”, tenho preferido fazer outras perguntas:

  • Quanto tempo de tela existe nos seus dias?
  • Quanto movimento livre?
  • Quanto brincar sem direcionamento?
  • Quanto contato com outras crianças?
  • Quanto descanso?
  • Quanto silêncio?
  • Quanto tempo existe para simplesmente estar?

Talvez estejamos tentando ensinar crianças a desacelerar depois de construir para elas um mundo que quase nunca desacelera.

Talvez estejamos preocupados porque não sabem esperar depois de termos eliminado quase todas as esperas.

Talvez estejamos preocupados porque não sabem lidar com o tédio depois de termos preenchido cada vazio.

E talvez alguns dos comportamentos que hoje classificamos como “difíceis” também estejam nos obrigando a olhar para aquilo que nós, adultos, normalizamos.

Porque discutir o excesso de telas não significa ser contra a tecnologia.

Significa perguntar o que acontece quando a tecnologia deixa de ocupar um lugar na infância e começa a ocupar o lugar de outras experiências da infância.

Antes de perguntarmos por que uma criança não consegue parar, talvez seja necessário perguntar:

Quando foi a última vez que o mundo ao redor dela realmente parou?

A infância precisa de estímulos.

Mas também precisa de pausas.

Precisa de movimento, de encontro, de imaginação, de silêncio, de tédio, de brincadeira e de tempo.

Tempo não apenas para assistir à infância acontecer.
Tempo para vivê-la.


Vanessa Lima Nunes

Vanessa Lima Nunes é pedagoga, alfabetizadora, especialista em Culturas da Infância e neuropsicopedagoga. Atua na educação e dedica seu trabalho à compreensão da infância, da aprendizagem e das diferentes formas pelas quais a criança se expressa e se desenvolve.

Ao longo de sua trajetória, construiu um olhar atento para aquilo que a criança comunica não apenas por meio das palavras, mas também através do corpo, do comportamento, da brincadeira, do silêncio, do desenho, da música e de outras formas de expressão.

Conheça mais sobre Vanessa Lima Nunes:
https://mundoreiki.com.br/autor/vanessa-lima-nunes/

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