Antes da técnica, existe uma pessoa
Por Gutta | Um Novo Caminho
Tenho pensado muito sobre o lugar do terapeuta diante de uma pessoa que chega para ser atendida.
Por que, muitas vezes, o terapeuta recebe uma queixa e imediatamente pensa na técnica que vai utilizar?
Mesa, pêndulo, protocolo, método.
Mas, antes de tudo isso, existe uma pessoa.
“Por que o terapeuta só quer abrir a mesa e deu? Não existe uma boa entrevista antes?”
Essa pergunta traduz muito da maneira como compreendo o atendimento.
Gosto de sentar, ouvir a história e entender tudo aquilo que se relaciona com a queixa apresentada.
Porque uma queixa pode ter muitas camadas.

Escutar antes de aplicar
Para mim, a técnica não pode substituir a escuta.
“Aplicar a técnica somente não aprofunda camadas.”
Antes de escolher o que fazer, precisamos compreender quem está diante de nós.
O terapeuta precisa saber ouvir, perguntar, observar e perceber aquilo que está além da primeira manifestação.
E esse aprofundamento não precisa acontecer em um único atendimento.
“Não precisa ser em um atendimento só.”
Um processo terapêutico pode ser construído ao longo do tempo. O importante é que o terapeuta saiba conduzir esse processo, percebendo o que surgiu, o que pode ser aprofundado e qual pode ser o próximo passo.
Quando o terapeuta trava
Tenho percebido que muitos terapeutas não travam por falta de ferramentas.
Às vezes, eles travam justamente porque têm muitas ferramentas, mas ainda não desenvolveram segurança para compreender o que fazer diante de uma pessoa real, com uma história real.
“Do terapeuta que se trava para atender o cliente.”
Esse bloqueio pode aparecer de diferentes maneiras.
Por não saber qual será o próximo passo.
Por pensar que precisa falar alguma coisa porque aquilo funcionou com outra pessoa.
Por não ter repertório suficiente para compreender aspectos emocionais, mentais ou situações do cotidiano.
Ou porque acaba olhando para o cliente a partir da própria história familiar.
“Não relaciona com a queixa porque tem suas inseguranças… porque não sabe o próximo passo, porque acha que deve falar isso porque com ela ou com uma outra pessoa aconteceu igual, não tem conhecimento sobre emocional, mental, situações cotidianas, ou porque foi criado assim, se baseia na história familiar. Existe várias camadas.”
Por isso, acredito que o terapeuta também precisa aprender a olhar para si.
O terapeuta precisa ter o próprio olhar
Não acredito que todos os terapeutas precisem atender da mesma maneira.
Cada profissional pode construir seu próprio jeito.
Mas existe uma diferença entre ter um jeito próprio e simplesmente fazer aquilo que aprendeu em algum lugar.
“O quanto você pode ter seu próprio jeito de atender, mas ter propriedade e sustentar o que você fala, faz…”
Para mim, essa propriedade nasce da consciência.
O terapeuta precisa saber por que está fazendo aquilo, reconhecer seus limites e compreender quando precisa aprofundar, estudar ou buscar outro olhar.
Inclusive porque temos limites cognitivos.
Não sabemos tudo. Não percebemos tudo.
E reconhecer isso não diminui o terapeuta. Pelo contrário: pode torná-lo mais responsável diante de quem procura seu cuidado.
A ferramenta não pode virar o terapeuta
Tenho visto também terapeutas que acabam colocando a ferramenta em um lugar de poder absoluto.
“Tem muito terapeuta endeusado, que acha que faz milagre com um pêndulo.”
Ou que acredita que uma mesa, um protocolo ou qualquer outro recurso será suficiente para explicar tudo o que acontece com aquela pessoa.
Mas precisamos entender para não nos emaranharmos.
“A gente precisa entender pra não se emaranhar.”
A ferramenta pode ser um recurso importante dentro de uma prática. Mas ela não pode substituir o olhar, a escuta e a responsabilidade de quem atende.

Tratar o ser, não apenas o sintoma
Sou terapeuta floral, e essa experiência também faz parte da maneira como compreendo o cuidado.
“Sou terapeuta floral, e Bach tratava a pessoa. O sintoma ele pode mudar… porque não tratamos no ser.”
Essa frase resume uma preocupação que considero essencial.
O sintoma pode mudar.
Por isso, quando olhamos somente para aquilo que aparece na superfície, podemos deixar de perceber a pessoa que está por trás daquela manifestação.
Não significa que precisamos resolver tudo imediatamente.
Significa que precisamos estar disponíveis para compreender.
O terapeuta também precisa aprender a conduzir
Muitos terapeutas possuem conhecimento, fizeram cursos, aprenderam técnicas, mas ainda não sabem exatamente como conduzir um atendimento.
E é aí que gosto de contribuir.
- Como receber esse cliente?
- Como estabelecer uma relação?
- Como escutar?
- Como investigar?
- Como compreender as diferentes camadas?
- Como saber qual pode ser o próximo passo?
- Como desenvolver segurança sem perder a humildade?
São perguntas que fazem parte desse caminho.
Não acredito em uma formação que transforme todos os terapeutas em iguais.
Quero contribuir para que cada profissional possa construir seu próprio jeito de atender, com mais consciência, presença e propriedade.
Despertar da consciência
Existe também algo que atravessa todo esse trabalho: o despertar da consciência.
Gosto de motivar, trazer presença e fortalecer a pessoa que está diante de mim.
Minha aluna, minha cliente, minha amiga — cada pessoa chega com uma história e um momento diferente.
E hoje tenho percebido que também sou procurada por terapeutas que querem ouvir meu ponto de vista:
“Guta, preciso de um olhar seu sobre como trabalhar tal assunto que meu cliente trouxe.”
Isso me fez perceber que existe algo que posso oferecer também a quem cuida.
Não para ensinar o terapeuta a ganhar dinheiro.
Não para criar fórmulas.
Não para transformar uma técnica em resposta para tudo.
Mas para ajudar o terapeuta a olhar melhor.
Um espaço para quem cuida
Meu foco está, principalmente, nos terapeutas iniciantes e naqueles que ainda estão construindo sua própria forma de atender.
Terapeutas que estudaram, aprenderam técnicas, mas às vezes se sentem inseguros diante de um atendimento real.
É para esse terapeuta que quero contribuir.
Não para ensinar uma fórmula pronta, mas para desenvolver olhar terapêutico, escuta, presença, consciência e capacidade de conduzir um processo.
- Não para ensinar o terapeuta a ganhar dinheiro.
- Não para criar fórmulas.
- Não para transformar uma técnica em resposta para tudo.
- Mas para ajudar o terapeuta a olhar melhor.
Talvez esse trabalho possa ser compreendido como uma espécie de “terapia de terapeutas” — não no sentido de substituir o processo terapêutico de cada profissional, mas de oferecer um espaço para olhar para a própria prática, suas dificuldades, inseguranças e possibilidades.
Quero ajudar o terapeuta a sair do:
“O que eu faço agora?”
para chegar ao:
“O que estou percebendo aqui? O que preciso compreender melhor? Qual é o próximo passo?”
E, principalmente, ajudá-lo a encontrar seu próprio jeito de atender, com propriedade, consciência e responsabilidade.

Um caminho para quem cuida
Talvez seja esse o lugar que estou começando a reconhecer no meu próprio trabalho.
Contribuir com terapeutas para que possam desenvolver seu próprio olhar, sua escuta e sua forma de conduzir um atendimento.
Especialmente aqueles que estão começando e que, mesmo tendo conhecimento e ferramentas, ainda se perguntam:
“E agora, o que eu faço com esse cliente?”
Não quero oferecer respostas prontas.
Quero ajudar a construir perguntas melhores.
Quero que o terapeuta possa olhar para além da técnica, reconhecer as camadas de uma queixa, perceber seus próprios limites e encontrar caminhos com mais presença e consciência.
Porque cada terapeuta pode ter seu próprio jeito de atender.
E cada pessoa que chega até ele merece ser escutada como única.
Talvez minha missão esteja justamente aí:
“Uma caminhante que aprendeu a guiar.”
Ajudar quem cuida a aprender a olhar.
E continuar caminhando junto com aqueles que também escolheram esse caminho de cuidado.