A queixa é a porta, não a casa
Por Gútta | Um Novo Caminho
Uma pessoa chega e diz:
“Meu relacionamento não dá certo.”
E, quase sem perceber, a mente do terapeuta já corre.
O que posso usar? Qual técnica combina? Qual é o próximo passo?
Tenho percebido como isso acontece rápido. E como é natural. A pessoa veio pedir ajuda, e nós queremos ajudar.
Mas existe um detalhe fácil de esquecer: a queixa é o que a pessoa consegue dizer hoje. Não é, necessariamente, tudo o que ela vive.
A porta de entrada

Gosto de pensar que a queixa é uma porta. É por ela que a pessoa entra no atendimento.
Mas quem chega até a porta ainda não mostrou a casa.
Por trás de “meu relacionamento não dá certo”, pode haver muita coisa:
- um cansaço antigo;
- uma dificuldade de dizer não;
- uma história que a pessoa aprendeu a contar de um jeito só;
- ou algo que ela mesma ainda não sabe nomear.
“A queixa é a porta, não a casa.”
Quando atendemos só a porta, a conversa fica curta. A pessoa sai com a sensação de que falaram do assunto, mas não dela.
Olhar além não é adivinhar
Olhar além da queixa não significa descobrir a causa de tudo em vinte minutos.
Também não significa interpretar a vida do outro.
É algo mais simples, e mais difícil.
É ficar curioso.
Perceber o que volta.
O que se repete em situações diferentes.
O que parece manter aquilo vivo, mesmo quando a pessoa já tentou de tudo para mudar.
É perguntar com interesse de verdade:
- Isso já aconteceu antes?
- Desde quando está aí?
- O que você já tentou?
E escutar a resposta inteira, inclusive o que vem nas entrelinhas, no silêncio, no jeito de contar.
Não para ter uma resposta pronta.
Não para transformar o que ouvimos em sentença.
Mas para ficar disponível para compreender.
O que atrapalha o olhar
Na maioria das vezes, não é falta de conhecimento.
Tenho visto que o olhar do terapeuta se turva por outros motivos:
- a pressa de resolver;
- o medo de não saber o que fazer;
- a vontade de mostrar que sabe;
- a ferramenta já na mão, esperando para ser usada;
- a própria história, que sem querer vira lente para enxergar a do outro.
“Às vezes a gente não escuta o cliente. Escuta a si mesma tentando dar conta.”
Reconhecer isso não diminui ninguém.
Pelo contrário.
É o que nos torna mais cuidadosos com quem confia em nós.
Nem tudo precisa acontecer hoje

Existe uma ideia silenciosa que pesa em muito terapeuta: a de que, se a pessoa veio, ela precisa sair com tudo resolvido.
Não precisa.
Uma queixa pode ter muitas camadas, e cada uma tem o seu tempo.
O importante é que quem conduz saiba perceber:
- o que apareceu;
- o que pode ser aprofundado;
- qual pode ser o próximo passo.
“Olhar além não é ir fundo demais. É não parar na porta.”
Uma caminhada, não uma corrida

Quando o terapeuta aprende a olhar assim, algo muda no atendimento.
Ele deixa de perguntar:
“O que eu faço agora?”
E passa a perguntar:
“O que estou percebendo aqui?”
A ferramenta continua importante.
Mas deixa de ser a primeira resposta e passa a ser uma escolha consciente.
Porque toda pessoa que chega com uma queixa está dizendo, de algum jeito:
“Tem mais, mas ainda não sei por onde começar.”
E talvez o nosso trabalho seja exatamente esse: abrir espaço para que ela descubra.
E como a gente pergunta, para que a porta se abra sem forçar?
É o que vamos conversar no próximo texto.

Sobre a autora
Gútta Cheuiche
Gútta Cheuiche é terapeuta holística, radiestesista e numeróloga cabalística, criadora da Mesa Seletiva Ativadora, método radiestésico desenvolvido por ela a partir da integração de gráficos energéticos, biômetros e geometria sagrada. Seu trabalho transita pelas práticas integrativas, pelo autoconhecimento e pela espiritualidade.
Formada em Psicologia, com especialização em Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico, encontrou nas práticas integrativas e na espiritualidade um novo caminho de atuação.
Conheça a página da autora:
https://mundoreiki.com.br/autor/gutta-cheuiche/