Reiki além das mãos: quando a prática se torna um caminho de vida
Michele Nunes Scheidt
Terapeuta Integrativa, Mestre em Reiki Usui Tradicional e Karuna Reiki e escritora.

“O protocolo me ensinou onde colocar as mãos. Os anos de prática começaram a me ensinar onde colocar a consciência.”
Quando conheci o Reiki
Quando conheci o Reiki, em 2001, aprendi como muitos reikianos daquela época: seguindo uma sequência de posições das mãos. Havia um protocolo a ser cumprido, um tempo de permanência em cada posição e uma forma estabelecida de realizar a prática.
Não me ensinaram a sentir. Não me ensinaram a perceber o que acontecia sob minhas mãos ou a desenvolver uma escuta mais sensível durante a aplicação. Aprendi as posições, conheci os Cinco Princípios do Reiki e foi assim que comecei.
E não há nada de errado nisso.
Quando damos os primeiros passos em qualquer caminho, precisamos de referências. O protocolo nos oferece segurança, organização e uma estrutura para praticar. Foi importante para mim e fez parte da construção da reikiana que me tornei.

Quando a prática se torna estudo
Mas os anos foram passando. A prática se tornou estudo, o estudo trouxe novas perguntas e essas perguntas me fizeram voltar muitas vezes àquilo que Mikao Usui havia deixado como fundamento.
Aos poucos, fui compreendendo que Reiki não era apenas aquilo que acontecia enquanto minhas mãos permaneciam sobre determinadas partes do corpo. Havia algo muito maior sendo ensinado.
Com o aprofundamento dos meus estudos, conheci outras formas de compreender e praticar o Reiki. Aprendi sobre percepção, presença, escuta e sobre a possibilidade de permitir que as mãos também fossem guiadas pelo que percebemos durante uma prática.
Descobri que não precisava apenas cumprir uma sequência. Era possível parar, perceber, sentir.
“Descobri que não precisava apenas cumprir uma sequência. Era possível parar, perceber, sentir.”
E isso mudou profundamente minha relação com o Reiki.
Sentir também é estar presente
Sentir, porém, não significa abandonar a técnica ou transformar cada percepção em uma interpretação. Muito menos diagnosticar o que acontece com a pessoa que está recebendo Reiki. Sentir é estar presente. É silenciar o suficiente para perceber. É compreender que existe diferença entre simplesmente colocar as mãos e estar verdadeiramente presente com elas.
Com o tempo, percebi que essa escuta não acontecia apenas durante uma aplicação. Quanto mais eu aprendia a sentir com as mãos, mais era convidada a perceber a mim mesma.

Os Cinco Princípios do Reiki
E foi também assim que os Cinco Princípios começaram a ganhar outra dimensão na minha prática.
Quando conheci o Reiki, aprendi os princípios em uma tradução mais próxima da forma literal:
- Só por hoje, não se irrite.
- Só por hoje, não se preocupe.
- Seja grato(a) com todos os seres.
- Trabalhe honestamente.
- Seja gentil com todos os seres.
Naquele momento, eles chegaram até mim como parte dos ensinamentos do Reiki. Anos depois, conheci uma forma terapêutica e afirmativa de trabalhar esses mesmos princípios e escolhi incorporá-la à minha prática pessoal:
- Só por hoje, sou calmo(a).
- Só por hoje, confio.
- Só por hoje, sou grato(a).
- Só por hoje, trabalho honestamente.
- Só por hoje, sou bondoso(a).
Não se trata, para mim, de escolher uma forma em detrimento da outra. A primeira preserva a proximidade com o ensinamento que nos foi transmitido; a segunda me convida a vivenciá-lo de uma maneira afirmativa, trazendo para o presente aquilo que desejo cultivar em mim.
Quando os princípios entram na vida
E talvez tenha sido justamente aí que os princípios começaram a sair do papel e entrar verdadeiramente na minha vida.
Porque calma, confiança, gratidão, honestidade e bondade ganham outro significado quando deixam de ser palavras que repetimos e passam a orientar a forma como atravessamos os acontecimentos cotidianos — especialmente aqueles que nos desafiam.
A calma é colocada à prova quando algo nos contraria. A confiança, quando não temos todas as respostas. A gratidão se aprofunda quando aprendemos a reconhecer também o que as experiências difíceis nos ensinam. A honestidade aparece na coerência entre aquilo que acreditamos e a maneira como vivemos. E a bondade talvez revele sua face mais desafiadora quando compreendemos que ela precisa alcançar não apenas os outros, mas também a nós mesmos.
“Talvez tenha sido justamente aí que os princípios começaram a sair do papel e entrar verdadeiramente na minha vida.”
Foi assim que os Cinco Princípios deixaram de ser, para mim, algo a ser apenas conhecido ou recitado e passaram a fazer parte de uma prática diária de autoconhecimento.

Fazer Reiki e viver Reiki
No início, minha atenção estava muito voltada para fazer Reiki. Com o tempo, comecei a compreender o que significava viver Reiki.
“Porque a prática não termina quando encerramos uma aplicação.”
Ela continua na maneira como reagimos a uma situação difícil, na forma como tratamos alguém, naquilo que fazemos quando ninguém está olhando, na capacidade de reconhecer nossas próprias emoções antes de projetá-las no outro e na escolha diária de sermos mais gentis conosco e com todos os seres.
É nesse sentido que hoje compreendo o Reiki muito além das mãos.
As mãos, as técnicas e o estudo continuam importantes. A tradição continua sendo a raiz que sustenta o caminho. Mas tudo isso precisa, em algum momento, encontrar espaço dentro de nós.
Onde colocar a consciência
O protocolo me ensinou onde colocar as mãos. Os anos de prática começaram a me ensinar onde colocar a consciência.
E talvez exista uma grande sabedoria justamente nas palavras que antecedem cada um dos princípios: Só por hoje.
Não há ali uma exigência de perfeição. Há um convite à presença.
“Temos o hoje para observar, escolher e recomeçar.”

Um caminho que continua
Depois de tantos anos nesse caminho, continuo aprendendo, praticando e encontrando nos mesmos princípios novas perguntas e novos significados.
Talvez essa seja uma das maiores belezas do Reiki: quanto mais caminhamos, mais percebemos que ainda temos a aprender.
E talvez seja justamente nesse movimento que, pouco a pouco, deixamos de apenas fazer Reiki e começamos verdadeiramente a vivê-lo.
Michele Nunes Scheidt
Terapeuta Integrativa, Mestre em Reiki Usui Tradicional e Karuna Reiki e escritora.
Sobre a autora
Michele Nunes Scheidt iniciou sua jornada no Reiki em 2001 e, desde 2012, dedica-se integralmente ao ensino, à prática clínica e ao desenvolvimento de projetos voltados ao cuidado integral por meio dessa terapia.
Escritora e pesquisadora dedicada ao aprofundamento da filosofia e da prática do Reiki, compartilha seus conhecimentos por meio de cursos, vivências, mentorias, palestras e publicações, contribuindo para a formação de praticantes e mestres.
Artigo anterior
Este artigo dá continuidade à trajetória apresentada anteriormente por Michele Nunes Scheidt no Mundo Reiki.
Michele Nunes Scheidt: ensino, pesquisa e dedicação ao Reiki
No artigo anterior, Michele apresenta sua trajetória no ensino, na pesquisa e na prática do Reiki. Nesta nova reflexão, aprofunda a própria experiência e compartilha como, ao longo dos anos, a prática foi deixando de ser apenas uma sequência de técnicas para se tornar também um caminho de presença, autoconhecimento e vida cotidiana.