Naturopatia e Alimentação Saudável

Cuidar também começa à mesa

Por Elke Franzeck — Terapeuta Clínica Integrativa | Naturopata | Aromaterapeuta | Reiki Master

Quando pensamos em alimentação saudável, é fácil imaginarmos imediatamente uma lista de alimentos permitidos e proibidos, dietas, calorias ou restrições. Na minha visão enquanto Terapeuta Clínica Integrativa e Naturopata, porém, alimentar-se de forma saudável começa muito antes daquilo que colocamos no prato.

Começa na forma como vivemos.

O nosso organismo não funciona por partes isoladas. Alimentação, digestão, sono, movimento, hidratação, stress, emoções e rotina relacionam-se continuamente. Por isso, dentro de uma abordagem naturopática, não procuro olhar apenas para o que a pessoa come, mas também para como, quando e em que contexto se alimenta.


Cada pessoa tem uma história — e a alimentação faz parte dela

Não acredito numa alimentação perfeita e universal.

As necessidades de uma pessoa podem ser muito diferentes das de outra. Idade, rotina, atividade física, preferências, cultura alimentar, condições de saúde e até a relação emocional construída com a comida ao longo da vida precisam de ser consideradas.

Por isso, antes de falar em mudanças, é importante observar.

Como estão os horários das refeições? Existe tempo para comer com tranquilidade ou tudo acontece a correr? Há variedade no prato? Como está a hidratação? Como funciona a digestão? Como estão o sono e os níveis de energia? Existe fome física ou, muitas vezes, comemos em resposta à ansiedade, ao cansaço, à tristeza ou simplesmente ao automatismo?

Essas perguntas ajudam-nos a compreender a pessoa para além do prato.


Voltar ao simples

Uma das bases que podemos trabalhar através da Naturopatia é o regresso progressivo a uma alimentação mais natural e variada.

Vegetais e hortaliças de diferentes cores, frutas, leguminosas, cereais integrais, sementes, frutos secos, ervas aromáticas e outros alimentos pouco processados podem ocupar um espaço maior na rotina alimentar, respeitando naturalmente as necessidades e tolerâncias individuais.

Não significa procurar uma alimentação rígida ou eliminar grupos alimentares indiscriminadamente.

Na maioria das vezes, mudanças sustentáveis começam de forma muito mais simples: beber mais água, aumentar a presença de vegetais, variar os alimentos, organizar melhor as refeições, cozinhar mais vezes em casa e diminuir gradualmente o consumo habitual de produtos ultraprocessados.

Pequenas escolhas repetidas ao longo do tempo podem produzir grandes diferenças.


Plantas, ervas e especiarias: muito além do sabor

As plantas também têm um lugar importante na tradição naturopática.

Ervas aromáticas e especiarias permitem acrescentar aroma, cor e sabor aos alimentos e ajudam a tornar uma alimentação simples muito mais interessante.

Já quando falamos de plantas medicinais, infusões terapêuticas, extratos ou suplementos, entramos noutro território.

“Natural” não é sinónimo de “inofensivo”.

Uma planta pode apresentar contraindicações, interferir com determinados medicamentos ou não ser adequada perante certas condições de saúde. Por isso, a utilização terapêutica da Fitoterapia deve ser feita de forma responsável e individualizada.


Alimentação e emoções também se encontram

Há ainda uma dimensão que considero fundamental: a nossa relação com a comida.

Comemos para nutrir o corpo, mas a alimentação também está ligada às nossas memórias, à família, à cultura, às celebrações e aos afetos.

Há sabores que nos levam diretamente à infância. Receitas que nos lembram alguém. Uma mesa que representa pertença. Um determinado aroma capaz de despertar uma memória que julgávamos esquecida.

Por isso, transformar a alimentação numa fonte permanente de medo, culpa ou controlo dificilmente combina com uma verdadeira proposta de saúde integral.

Uma alimentação equilibrada também precisa de permitir prazer, convivência e flexibilidade.

Saúde não deve significar viver em guerra com o próprio prato.


O estilo de vida também alimenta

Podemos escolher cuidadosamente aquilo que comemos e, ainda assim, esquecer outros elementos essenciais.

Dormir pouco, viver permanentemente sob stress, passar o dia sentado, comer sempre com pressa e não reservar qualquer espaço para descanso também influencia o nosso bem-estar.

É aqui que a visão integrativa ganha particular importância.

Alimentação saudável não existe isoladamente. Ela faz parte de um conjunto que inclui sono adequado, movimento compatível com cada pessoa, hidratação, contacto com a natureza, relações saudáveis, gestão do stress e momentos reais de pausa.

Não precisamos transformar a vida numa sucessão de regras para cuidar melhor de nós.

Precisamos torná-la mais consciente.


Onde entra a Naturopatia?

Na minha prática, a Naturopatia pode ser utilizada como uma abordagem complementar para observar hábitos e estilo de vida, identificar aspetos que podem ser melhorados e incentivar escolhas mais conscientes e compatíveis com a realidade de cada pessoa.

Não se trata de substituir a Medicina nem a Nutrição.

Quando existem doenças diagnosticadas, alterações metabólicas, alergias ou intolerâncias, necessidades nutricionais específicas, perturbações do comportamento alimentar ou qualquer situação que exija intervenção clínica especializada, o acompanhamento médico e/ou de um nutricionista é fundamental.

O verdadeiro trabalho integrativo não procura competir com outras áreas da saúde.

Procura dialogar com elas.

É precisamente essa complementaridade que permite colocar a pessoa — e não uma técnica isolada — no centro do cuidado.


Cuidar também começa à mesa

Talvez uma alimentação saudável não precise começar com a pergunta:

“O que tenho de deixar de comer?”

Talvez possamos começar de outra maneira:

“O que posso acrescentar à minha vida para me nutrir melhor?”

Mais água.
Mais alimentos naturais e variados.
Mais cores no prato.
Mais consciência.
Mais movimento.
Mais descanso.
Mais tempo para mastigar e saborear.
Mais respeito pelos sinais do próprio corpo.
E menos culpa.

Porque alimentar-se bem não deveria ser um castigo nem uma procura interminável pela perfeição.

Deve ser uma forma quotidiana de cuidado.

A Naturopatia pode ajudar-nos justamente nesse caminho: a recuperar a simplicidade, compreender os nossos hábitos e construir escolhas possíveis de manter no tempo.

Afinal, cuidar da saúde não acontece apenas quando alguma coisa deixa de estar bem.

Cuidar é também aquilo que escolhemos fazer, um pouco, todos os dias.

E muitas dessas escolhas começam num lugar muito simples: à nossa mesa.


Sobre a autora

Elke Franzeck
Terapeuta Clínica Integrativa & Transpessoal · Naturopata · Aromaterapeuta Clínica · Reiki Master

Elke Franzeck é gaúcha de Porto Alegre e vive há 17 anos em Coimbra, Portugal.

A sua trajetória reúne formação e experiência em diferentes abordagens terapêuticas, tendo como eixo uma visão integrativa e humanizada do cuidado.

Conheça a autora no Mundo Reiki


Nota da autora

Este artigo tem carácter informativo e educativo. A Naturopatia e as terapias integrativas são abordagens complementares e não substituem diagnóstico, tratamento ou acompanhamento médico e/ou nutricional quando estes são necessários.

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