“Eles não sabem brincar”
Ou nós não estamos permitindo que aprendam?
“Eles não sabem mais brincar.”

Tenho ouvido essa frase na escola, nas famílias e nas conversas entre adultos. Vejo crianças cercadas de brinquedos dizendo não ter nada para fazer. Crianças que começam uma brincadeira e logo a abandonam. Que pedem ao adulto uma atividade, uma ideia, uma tela.
Mas sempre me pergunto: será que uma criança simplesmente deixa de saber brincar?
Ou estamos diante de uma infância que encontra cada vez menos oportunidades para aprender a construir a própria brincadeira?
Brincar livremente exige mais do que brinquedos
Tenho pensado que brincar livremente exige mais do que brinquedos.
Exige tempo, espaço, continuidade e liberdade para experimentar.
Uma caixa precisa poder deixar de ser caixa para virar casa, navio ou esconderijo. Um pedaço de tecido pode ser capa, cabana, vestido ou rio. Uma história começa, muda de direção, perde a graça e recomeça.
Nada disso chega completamente pronto.
A criança precisa imaginar, decidir, transformar, sustentar uma ideia e produzir sentidos para aquilo que encontra.
E talvez esteja justamente aí uma diferença importante entre brincar e ser entretida.
O entretenimento oferece uma experiência organizada. A brincadeira exige que a criança participe de sua construção.

Quando a experiência já chega pronta
Na infância atravessada pelas tecnologias digitais, percebo que uma quantidade extraordinária de narrativas, imagens e recompensas chega pronta e em alta velocidade. Um vídeo termina e outro começa. Um jogo apresenta objetivos. Uma plataforma oferece continuamente aquilo que poderá prender a atenção nos próximos segundos.
Não acredito que tecnologia e brincadeira sejam incompatíveis. Crianças também criam, imaginam, socializam e aprendem em ambientes digitais.
O que me preocupa é quando receber experiências prontas passa a ocupar progressivamente o espaço de inventá-las.
Então acontece uma cena que conhecemos bem.
Retiramos a tela e ouvimos:
“Mas eu vou fazer o quê?”
Para mim, essa pergunta diz muito sobre a infância contemporânea.
Não necessariamente que aquela criança tenha perdido sua capacidade de brincar, mas que esteja pouco habituada ao intervalo entre não ter nada para fazer e inventar alguma coisa.
Porque brincar também se aprende brincando
Porque brincar também se aprende brincando.
Aprende-se atravessando o tédio inicial. Experimentando. Repetindo. Negociando regras. Encontrando outras crianças. Transformando objetos. Frustrando-se quando uma construção cai e decidindo se vale a pena começar novamente.
Por isso, tenho tomado cuidado quando ouço que “as crianças não sabem mais brincar”.
“Uma criança não pode aprender a habitar um tempo que nós não permitimos que exista.”

E talvez nós, adultos, também tenhamos desaprendido a suportar o tédio infantil. Diante do “não tenho nada para fazer”, oferecemos rapidamente uma resposta, uma atividade ou uma tela.
Mas, se preenchemos cada intervalo, se oferecemos um estímulo para cada espera e uma solução para cada incômodo, deixamos pouco espaço para a pergunta fundamental da brincadeira:
“O que eu posso inventar com isso?”
Devolver tempo, espaço e um pouco de vazio
Talvez o desafio da infância tecnológica não seja ensinar novamente as crianças a brincar.
Talvez seja devolver a elas tempo, espaço, materiais, convivência e um pouco de vazio.
E, principalmente, ter paciência para não preencher imediatamente esse vazio.
Porque, antes de uma brincadeira nascer, muitas vezes existe um instante aparentemente sem importância em que uma criança simplesmente não sabe o que fazer.

“Talvez seja justamente ali que o brincar esteja começando.”
Sobre a autora
Vanessa Lima Nunes
Vanessa Lima Nunes é pedagoga, alfabetizadora, especialista em Culturas da Infância e neuropsicopedagoga. Atua na educação e dedica seu trabalho à compreensão da infância, da aprendizagem e das diferentes formas pelas quais a criança se expressa e se desenvolve.
Ao longo de sua trajetória, construiu um olhar atento para aquilo que a criança comunica não apenas por meio das palavras, mas também através do corpo, do comportamento, da brincadeira, do silêncio, do desenho, da música e de outras formas de expressão.