Uma espiritualidade sem estatuto
Talvez uma das maiores confusões no Reiki surja quando começamos a associar espiritualidade a estatuto. A pessoa que tem mais níveis, que conhece mais símbolos, que relata mais experiências ou que fala com maior segurança sobre energia pode facilmente ser vista como alguém mais espiritual.

Também é comum ouvirmos afirmações como “sou médium”, “fui escolhida”, “tenho uma missão” ou “os meus guias disseram-me que…”. Estas experiências podem ter significado para quem as vive, mas não deveriam transformar-se numa medida do valor espiritual de ninguém.
A espiritualidade não se mede necessariamente pelo que conseguimos contar sobre nós, mas na forma como tratamos os outros quando não estamos a ser observados, na capacidade de admitir que não sabemos, na forma como lidamos com os nossos limites e na maneira como usamos aquilo que aprendemos.
“Não é preciso ser médium, ter visões, sentir uma missão grandiosa ou ser escolhido para alguma coisa.”
A vida já é suficientemente profunda sem precisarmos de acrescentar uma narrativa extraordinária sobre quem somos.
A dimensão espiritual não começa apenas quando recebemos uma mensagem, uma iniciação ou uma experiência fora do comum. Pode estar presente na própria experiência de estarmos vivos, no modo como habitamos o corpo, na relação com os outros e na atenção que damos ao mundo.
O controlo e a transformação
Muitas pessoas procuram o Reiki para conseguir manifestar, atrair ou alcançar aquilo que desejam. Não há nada de errado em ter desejos, mas torna-se um problema quando tentamos transformar a prática num instrumento de controlo absoluto sobre a vida.
A vida é impermanente e não é um mecanismo que responde sempre da mesma forma aos nossos pensamentos, intenções ou rituais. Há acontecimentos que não controlamos, como perdas, mudanças, incerteza, pessoas que tomam decisões que não dependem de nós e limites no corpo e no tempo.
“Talvez a prática não exista para fazer a vida obedecer aos nossos desejos, mas para nos ajudar a transformar a maneira como vivemos aquilo que não conseguimos controlar.”
Isto não significa resignação, nem deixar de agir ou aceitar qualquer situação sem procurar mudança. Significa distinguir aquilo que está nas nossas mãos daquilo que não está, agir onde podemos agir, pedir ajuda quando precisamos e aprender, pouco a pouco, a não desperdiçar toda a nossa energia numa luta contra a realidade.
Como estamos a viver aquilo em que acreditamos
No final, a pergunta regressa: “Como estou a viver aquilo em que digo acreditar?”
Se digo que acredito na presença, consigo estar presente numa conversa? Se digo que acredito no cuidado, trato o meu corpo como alguém que merece cuidado? Se falo de equilíbrio, reconheço quando estou a viver acima dos meus limites? Se pratico Reiki, permito que a prática transforme os meus comportamentos ou limito-me a falar sobre energia?
Não precisamos de responder perfeitamente, porque esta não é uma prova e não existe um momento a partir do qual passamos a ser pessoas plenamente conscientes, equilibradas ou espirituais. A prática é justamente o lugar onde percebemos que ainda estamos a aprender.
Por isso, o Reiki não precisa de caber na nossa pressa para ter valor. Não precisa de produzir fenómenos, de nos tornar especiais ou de ser apresentado como resposta para tudo. Pode ser simplesmente uma prática de cuidado, uma forma de regressar ao corpo e ao momento presente, e uma oportunidade para observar a vida com um pouco mais de honestidade.
E talvez seja por isso que, quanto mais profundamente o estudamos, menos precisamos de o tornar extraordinário, porque já o é.
O Reiki pode ser maior do que as promessas que fazemos sobre ele, maior do que os títulos, maior do que as expectativas e maior do que a necessidade de provar que funcionou.
“Porque, no fundo, talvez a transformação não esteja em conseguir uma vida sem dificuldades. Talvez esteja em aprender a viver com mais responsabilidade e mais humanidade aquilo que a vida nos apresenta.”

Sobre o autor
Justino Pereira vive em Vila de Rei, no interior de Portugal. É praticante, terapeuta e mestre de Reiki, além de fundador do Vila de Reiki, um projeto que procura oferecer um espaço sereno e integrado para a prática, o ensino e a comunicação do Reiki.
A sua trajetória profissional principal foi como guarda prisional, onde permaneceu durante mais de uma década em contexto prisional. Esse tempo marcou-o profundamente, ao colocar-lhe frente a frente com questões de dignidade, sofrimento e possibilidade de transformação humana. Foi também nesse período que se tornou autodidata na área do desenvolvimento pessoal e começou a explorar caminhos esotéricos e espirituais, procurando compreender o que habita dentro de nós e como isso se relaciona com o modo de estar no mundo.